Home chevron_right Notícias
Notícias

HGLG11, GARE11 e RBRR11: três FIIs negociando com desconto sob a lupa

Fundos de logística, renda urbana e crédito imobiliário chamam atenção por preços abaixo do valor patrimonial, mas exigem análise individual de riscos

Redação RadarFII Publicado em 31/08/2026

A queda das cotas de fundos imobiliários voltou a colocar alguns dos maiores FIIs da Bolsa no radar de investidores que buscam renda e ativos negociados abaixo do valor patrimonial. Entre os nomes destacados em uma análise recente estão HGLG11, GARE11 e RBRR11, três fundos com estratégias diferentes e características que exigem avaliação individual antes de qualquer decisão.

O material que serviu de base para esta reportagem apresenta os três FIIs como fundos que estariam negociando com desconto e defende que a pressão recente sobre as cotas cria uma possível janela para investidores de longo prazo. A avaliação, porém, é uma opinião do autor do conteúdo original e não representa garantia de valorização futura nem recomendação de investimento.

Dados divulgados pelos próprios fundos mostram que há fundamentos relevantes por trás das três teses, mas também riscos que precisam ser considerados.

HGLG11 mantém baixa vacância e distribuiu R$ 1,17 por cota

O HGLG11, atual Pátria Log, é um dos maiores fundos imobiliários de logística do mercado brasileiro e ultrapassou a marca de 607 mil cotistas.

Segundo o relatório gerencial referente a julho de 2026, a vacância física caiu para 2,9%, enquanto a financeira ficou em 3,7%. O movimento ocorreu após novas locações, incluindo operações envolvendo Shopee, Bosch, RKS e Tradimaq.

O fundo registrou resultado de R$ 1,82 por cota no período e distribuiu R$ 1,17 por cota. Parte relevante do resultado veio da venda do imóvel de Itapevi, que gerou lucro de R$ 0,98 por cota, segundo a gestão.

O pagamento de R$ 1,17 também consta entre os rendimentos divulgados em agosto.

Outro ponto acompanhado pelo mercado é o desenvolvimento de novos galpões. Em julho, a obra do HGLG Itupeva G400, que possui contrato do tipo built-to-suit com o Mercado Livre, estava com 53,6% de avanço físico. O fundo também mantinha projeto em Simões Filho, na Bahia.

Se você quer aprender a investir em Fundos Imobiliários do zero, preparei um guia completo com tudo que você precisa saber. Acesse o guia aqui.

Na prática, a baixa vacância reduz um dos principais riscos operacionais dos FIIs de tijolo: ter imóveis sem gerar aluguel. Isso, contudo, não impede oscilações da cota na Bolsa nem garante a manutenção dos dividendos.

GARE11 tem imóveis ocupados e contratos de longo prazo

O segundo nome destacado é o GARE11, Guardian Real Estate, fundo com exposição principalmente aos segmentos de renda urbana e logística.

O relatório gerencial de junho mostra que o fundo encerrou o período com vacância física e financeira zerada e uma base superior a 535 mil cotistas. O rendimento distribuído naquele mês foi de R$ 0,083 por cota.

Dados da carteira indicavam 33 imóveis, aproximadamente 463,8 mil metros quadrados de área locável e presença em 15 estados. Cerca de 94% dos contratos eram atípicos, com prazo médio ponderado próximo de 9,9 anos.

Contratos atípicos geralmente possuem condições mais rígidas para rescisão antecipada e podem aumentar a previsibilidade do fluxo de aluguel. Isso não significa, entretanto, que a receita seja garantida por todo o prazo: risco de crédito dos locatários, renegociações, vendas de ativos e outros eventos continuam existindo.

Entre os locatários divulgados aparecem companhias como Carrefour, GPA, Grupo Mateus, MRV, Mercado Livre, Vale, Air Liquide e 3 Corações.

Há ainda uma mudança importante em andamento. O fundo formalizou um acordo relacionado à venda de um portfólio de dez imóveis por R$ 804,4 milhões, operação cuja estrutura envolve recursos em dinheiro, cotas subordinadas e financiamento ao comprador.

Por isso, olhar apenas para o desconto da cota pode esconder mudanças relevantes na composição futura do portfólio.

RBRR11 negocia abaixo do patrimônio, mas crédito exige atenção adicional

O terceiro fundo da lista é o RBRR11, atualmente denominado Pátria Rendimento High Grade.

Ao contrário de HGLG11 e GARE11, sua principal estratégia não é possuir diretamente galpões, supermercados ou outros imóveis. A carteira está concentrada principalmente em Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e outras operações de crédito imobiliário.

No encerramento de junho, o fundo possuía patrimônio líquido de aproximadamente R$ 1,50 bilhão, com valor patrimonial de R$ 92,06 por cota e preço de mercado de R$ 78,23. Isso correspondia a um P/VP de aproximadamente 0,85 vez.

Em julho, a diferença aumentou: dados dos informes mensais indicavam patrimônio de R$ 91,91 por cota, contra preço de fechamento mensal de R$ 75,94, resultando em P/VP próximo de 0,83.

Isso significa que a cota estava sendo negociada por um valor inferior ao patrimônio contábil do fundo. O indicador, porém, não deve ser interpretado isoladamente como lucro automático ou garantia de recuperação do preço.

No relatório referente a junho, aproximadamente 95,3% do patrimônio estava alocado em CRIs e operações estruturadas. A carteira de CRIs apresentava yield nominal médio de 15,7%, equivalente, segundo o relatório, a IPCA mais 9,9%.

O rendimento distribuído naquele período foi de R$ 0,98 por cota. Em agosto, o fundo realizou pagamento de R$ 0,90 por cota.

Desconto elevado também pode refletir risco

O RBRR11 ilustra por que o P/VP precisa ser analisado junto com a qualidade dos ativos.

O próprio relatório gerencial registrou desinvestimentos em determinadas posições e apontou a inclusão de uma operação, o CRI Landsol, em lista de acompanhamento por questões relacionadas à governança e necessidade de reestruturação.

Além disso, o fundo passou a discutir uma possível consolidação com outros fundos de crédito high grade administrados pela mesma casa, processo ainda sujeito às etapas societárias necessárias. Documentos posteriores indicam assembleia relacionada ao tema prevista para setembro.

Portanto, embora o desconto em relação ao patrimônio seja expressivo, ele precisa ser avaliado junto com risco de crédito, qualidade das garantias, concentração dos devedores e estrutura das operações.

O que significa comprar um FII abaixo do valor patrimonial?

Um P/VP inferior a 1 indica que a cota está sendo negociada abaixo do valor patrimonial informado pelo fundo.

Se um FII apresenta P/VP de 0,85, por exemplo, significa matematicamente que o mercado está pagando aproximadamente R$ 0,85 por cada R$ 1 de patrimônio contábil.

Mas isso não significa que o investidor esteja automaticamente "ganhando" 15% ao comprar a cota.

O mercado pode aplicar desconto por diversos motivos, entre eles:

  • expectativa de juros elevados;
  • risco de crédito;
  • possibilidade de redução dos dividendos;
  • qualidade ou liquidez dos imóveis;
  • alavancagem;
  • novas emissões;
  • deterioração das expectativas econômicas;
  • percepção de risco da gestão ou da carteira.

Por isso, o indicador funciona melhor como ponto de partida para análise do que como sinal automático de compra.

Juros longos ajudam a explicar a pressão sobre as cotas

A análise que originou esta pauta atribui parte da recente pressão sobre os fundos imobiliários à alta das taxas de juros de longo prazo, mesmo em um cenário no qual a trajetória da Selic pode seguir uma dinâmica diferente.

Essa relação é importante porque títulos públicos indexados à inflação concorrem diretamente com ativos de renda variável pelo capital do investidor.

Quando títulos públicos passam a oferecer juros reais elevados, o mercado pode exigir retornos maiores dos FIIs. Como os aluguéis e contratos não se ajustam imediatamente, parte desse ajuste pode ocorrer por meio da queda do preço das cotas.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que um imóvel pode continuar ocupado, recebendo aluguel, enquanto a cota do fundo cai na Bolsa.

HGLG11, GARE11 e RBRR11 têm teses diferentes

Apesar de aparecerem juntos na análise, os três fundos não são equivalentes.

O HGLG11 concentra sua tese em imóveis logísticos e combina grande diversificação de inquilinos com baixa vacância.

O GARE11 reúne principalmente ativos de renda urbana e logística e possui elevada participação de contratos atípicos de longo prazo.

Já o RBRR11 é essencialmente uma carteira de crédito imobiliário. Nesse caso, inflação, juros, inadimplência, qualidade dos devedores e garantias ganham peso maior na análise.

A existência de desconto patrimonial em qualquer um deles pode chamar atenção, mas não elimina riscos nem garante valorização das cotas.